sábado, 4 de setembro de 2010

O teatro na ditadura


Com a tomada do poder pelos militares em 1964, o teatro brasileiro começou a amargar talvez um dos piores momentos da sua história devido à repressão e à censura exercidas pelo regime autoritário. E essa situação só iria piorar após a promulgação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), pelo então presidente da República, Marechal Costa e Silva, em 13 de dezembro de 1968.

"Posso afirmar mesmo que a ditadura operou sobre mim e o Oficina o que Glauber Rocha chamava de assassinato cultural. Eu e o teatro fomos assassinados socialmente. A própria sociedade brasileira, os jovens que começavam a fazer teatro nestes anos, achavam que eu tinha morrido e muitos decretaram a morte do Teatro Oficina. Os quinze anos foram de uma luta enorme para acreditar que nós tínhamos resistido à repressão, à tortura e para provar a mim mesmo que eu estava vivo de novo. Não falava quase em tortura ou repressão, somente em atos teatrais, para não virar vítima e tocar a criação adiante. Reaberto o teatro foram mais de 10 anos de muito sucesso, mas de muita luta para provar ao próprio público do Oficina dos anos 60 que nós tínhamos ressuscitado e estávamos fazendo um trabalho de tanto ou mais valor do que nos anos 'dourados' "
Zé Celso no relato que enviou à Comissão de Anistia em 8 de dezembro de 2004.

O diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa recebeu indenização e perdão do Estado Brasileiro em anistia política sobre perseguição do período de ditadura militar. O valor da indenização ficou fixado em R$ 570 mil e o diretor passa a ter direito a vencimentos mensais vitalícios de cerca de R$ 5 mil.
José Celso Martinez Corrêa foi abordado por agentes da ditadura militar no dia 22 de maio de 1974. Ele foi encapuzado e levado ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops), na capital paulista, onde passaria quase um mês. Durante sua prisão, sofreu tortura e ficou confinado em uma solitária. A motivação da prisão, no entanto, nunca foi revelada. Depois de solto para liberdade condicional teve que toda semana se apresentar no Dops.

“A arbitrariedade da censura é sempre prejudicial, e quando se torna virulenta, como foi depois do AI-5, pode ser, como foi, responsável por terríveis prejuízos para o teatro. A interrupção da criação livre atrasou por duas décadas o desenvolvimento do teatro, que teve, quando acabou a censura, de recomeçar quase que da estaca zero. A dramaturgia teve um corte tão violento que está até hoje ainda lutando para encontrar seu caminho, apesar de, nos últimos tempos, ter se apresentado numerosa o bastante para dar esperança de um progresso constante” destaca a professora e crítica teatral Barbara Heliodora.

O auge da repressão foi atingido em julho de 1968, quando pessoas ligadas ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiram, em São Paulo, o teatro onde estava sendo encenada a peça "Roda Viva", de Chico Buarque. Atores e atrizes do elenco foram espancados, enquanto cenário e equipamentos eram destruídos. As atrizes foram despidas e obrigaram Marília Pêra e Rodrigo Santiago, também despidos, a irem para a rua. Em setembro, no Rio Grande do Sul, repete-se a mesma agressão contra o elenco da peça. A censura acaba proibindo o espetáculo.
Essa violência e insegurança serviram para afastar de vez a classe média do teatro. Ainda havia uma forte campanha junto à opinião pública para tentar colocar o teatro como um reduto de subversivos, de violência e de pervertidos. A qualidade dos espetáculos despencou. Foram poucas as peças que conseguiram driblar a censura e trazer alguma coisa nova para o teatro brasileiro. Para Barbara Heliodora, o AI-5 foi um golpe mortal para o teatro brasileiro.

Com a ditadura militar, os grandes grupos deram lugar a pequenas companhias, que trabalhavam com recursos limitados, em espaços alternativos e sem grandes apelos para o público. Para tentar escapar à censura, os grupos encenavam peças clássicas da dramaturgia estrangeira.
Grupos teatrais que se empenhavam em construir uma dramaturgia brasileira e formar novos atores, como o Oficina, organizado pelo diretor José Celso Martinez Corrêa, e o Arena, do diretor Augusto Boal, não conseguiram resistir à asfixia gerada pela repressão.

“O público desaprendeu a ir ao teatro, de modo que o prejuízo foi gravíssimo para todo o teatro
Barbara Heliodora

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